CRISTIANO AMON

Estamos entrando em uma nova fase da computação, onde a IA deixará de ser apenas uma ferramenta e passará a atuar como um agente digital pessoal. Assistentes inteligentes capazes de compreender contexto, antecipar necessidades e executar tarefas complexas poderão acompanhar usuários em qualquer dispositivo.

MINT - CIÊNCIA

6/21/2026

No início da década de 1970, enquanto o mundo ainda engatinhava na revolução da informática e a internet sequer existia para o público, nascia em Campinas, interior de São Paulo, um menino que décadas mais tarde ajudaria a conectar bilhões de pessoas ao redor do planeta. Seu nome era Cristiano Amon.

Naquela época, o telefone era um aparelho preso à parede, computadores ocupavam salas inteiras e a ideia de transmitir vídeos, realizar chamadas em alta definição ou conversar instantaneamente com alguém do outro lado do planeta parecia mais ficção científica do que realidade. Mas o destino de Cristiano acabaria se entrelaçando justamente com essa transformação.

Filho de um engenheiro eletricista, ele cresceu em um ambiente onde tecnologia não era apenas uma profissão, mas um assunto presente nas conversas da família. Ainda muito jovem, fascinava-se por desmontar equipamentos, entender circuitos eletrônicos e imaginar como sinais invisíveis viajavam pelo ar para transportar voz e informação. Havia algo quase mágico nas ondas de rádio. Eram invisíveis, silenciosas, mas tinham o poder de unir pessoas separadas por quilômetros de distância.

Enquanto muitos enxergavam a engenharia como um caminho tradicional, Cristiano percebia nela uma oportunidade de construir o futuro.

Foi esse entusiasmo que o levou à Universidade Estadual de Campinas, uma das maiores referências em engenharia e pesquisa tecnológica da América Latina. Nos corredores da universidade, cercado por laboratórios, professores e pesquisadores, aprofundou seus conhecimentos em engenharia elétrica justamente quando o mundo começava a dar os primeiros passos rumo à comunicação móvel digital.

Era o início dos anos 1990. Os telefones celulares ainda eram enormes, caros e acessíveis apenas para uma pequena parcela da população. Pouquíssimas pessoas conseguiam imaginar que, algumas décadas depois, praticamente todo ser humano carregaria no bolso um computador milhares de vezes mais poderoso do que as máquinas que levaram o homem à Lua.

Após concluir sua graduação, Cristiano iniciou sua carreira na operação brasileira da NEC. Não demorou para que surgisse uma oportunidade que mudaria sua vida: trabalhar no Japão, um dos países mais avançados do mundo em telecomunicações.

Foi ali que sua visão começou a se expandir. Pela primeira vez, ele acompanhava de perto o desenvolvimento das tecnologias que transformariam a comunicação global. Enquanto muitos ainda discutiam como popularizar os celulares analógicos, engenheiros japoneses e americanos já planejavam as próximas gerações das redes móveis.

Em 2021, veio o reconhecimento máximo.

Após quase três décadas de dedicação, Cristiano Amon assumiu a presidência executiva mundial da Qualcomm.

Era um momento histórico. Um engenheiro formado na Unicamp passava a liderar uma das empresas mais estratégicas da indústria global de semicondutores, responsável por tecnologias presentes em bilhões de dispositivos.

Mas ele sabia que uma nova transformação estava apenas começando.

Se o século XXI havia sido marcado pelos smartphones, a próxima revolução seria impulsionada pela inteligência artificial.

Enquanto grande parte do mercado concentrava seus esforços apenas em grandes centros de dados, Cristiano defendia uma visão diferente. Para ele, a inteligência artificial deveria estar em todos os lugares: no telefone que cabe no bolso, no computador sobre a mesa, no carro, no relógio, no drone, nos óculos inteligentes e até em equipamentos industriais. A IA precisaria funcionar diretamente nos dispositivos, com velocidade, privacidade e baixo consumo de energia, sem depender constantemente da nuvem.

Essa visão colocou a Qualcomm na linha de frente da chamada Edge AI, uma abordagem que busca levar o poder da inteligência artificial para bilhões de aparelhos distribuídos pelo planeta.

Sob sua liderança, a empresa expandiu sua atuação para além dos smartphones, investindo em computadores pessoais, automóveis conectados, Internet das Coisas, robótica, realidade aumentada e sistemas industriais inteligentes. Em vez de seguir tendências, Cristiano procurou antecipá-las, apostando que a próxima grande plataforma tecnológica seria um ecossistema de dispositivos inteligentes trabalhando de forma integrada.

Sua trajetória é, acima de tudo, a prova de que talento, curiosidade e visão podem atravessar fronteiras. De um jovem fascinado pelas ondas invisíveis que percorriam o ar, ele se tornou um dos arquitetos da infraestrutura digital que conecta bilhões de pessoas. E, enquanto o mundo avança para uma nova era impulsionada pela inteligência artificial, seu trabalho continua ajudando a definir como essa tecnologia chegará às mãos de cada pessoa, em cada dispositivo, em cada canto do planeta. A história de Cristiano Amon não é apenas a de um executivo de sucesso; é a história de um brasileiro que participou da construção das bases do mundo conectado e que segue influenciando o futuro da tecnologia global.

Durante esse período, Cristiano passou a visitar com frequência uma empresa localizada em San Diego, na Califórnia. Seu nome ainda era pouco conhecido fora do setor de telecomunicações, mas seus laboratórios respiravam inovação. Chamava-se Qualcomm.

Naquele momento, talvez nem ele imaginasse que aquela empresa se tornaria sua casa profissional pelos trinta anos seguintes.

Em meados da década de 1990, Cristiano recebeu o convite para integrar a Qualcomm. A empresa acreditava que a tecnologia conhecida como CDMA seria uma das bases da telefonia móvel do futuro, e precisava de profissionais capazes de ajudar a expandi-la pelo mundo.

Foi um período de intenso aprendizado. Contudo, em vez de permanecer em uma única organização, Cristiano decidiu ampliar sua experiência. Trabalhou na Ericsson, participou de projetos na VeloCom e assumiu cargos executivos na operadora brasileira Vésper, onde enfrentou desafios de gestão, operação e estratégia empresarial.

Essa passagem pelo lado operacional do mercado lhe proporcionou uma visão que poucos engenheiros possuem. Ele compreendeu que tecnologia, por si só, não transforma o mundo. Era necessário entender clientes, negócios, investimentos, riscos e mercados.

Em 2004, Cristiano retornou à Qualcomm.

Esse retorno marcaria definitivamente sua trajetória.

Ao longo dos anos seguintes, tornou-se um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento das plataformas Snapdragon, processadores que hoje alimentam bilhões de smartphones em praticamente todos os continentes. Enquanto consumidores admiravam a velocidade de seus aparelhos, poucos sabiam que, por trás daquela evolução, havia equipes lideradas por um engenheiro brasileiro trabalhando para tornar cada nova geração mais rápida, eficiente e inteligente.

Mas talvez sua maior contribuição tenha sido participar da construção do 5G.

Durante anos, essa tecnologia existiu apenas em laboratórios e centros de pesquisa. Era uma promessa distante, cercada de enormes desafios científicos. Seria possível transmitir muito mais dados consumindo menos energia? Como conectar milhões de dispositivos simultaneamente? Como reduzir o tempo de resposta para poucos milissegundos?

Responder a essas perguntas exigiu milhares de pesquisadores espalhados pelo mundo. Cristiano tornou-se um dos líderes desse esforço global.

Quando o 5G finalmente começou a ser implantado, não representava apenas uma internet mais rápida para celulares. Era a infraestrutura que permitiria carros autônomos, fábricas inteligentes, cirurgias remotas, cidades conectadas, robôs colaborativos e uma nova geração de aplicações baseadas em inteligência artificial.

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