
MACKGRAPHE
Em um século marcado pela inteligência artificial, pela computação avançada, pela transição energética e pelos novos materiais, o grafeno desponta como um dos pilares da próxima revolução industrial.
MINT - CIÊNCIA
6/29/2026
Há materiais que mudam produtos. Outros mudam indústrias. E existem aqueles raríssimos que têm o potencial de transformar a própria civilização. O grafeno pertence a essa última categoria. Considerado por muitos cientistas o material mais promissor do século XXI, ele reúne propriedades que durante muito tempo pareciam impossíveis de coexistir: é cerca de 200 vezes mais resistente que o aço, extremamente leve, flexível, transparente e um dos melhores condutores de eletricidade e calor já descobertos. Desde seu isolamento em 2004, o grafeno desencadeou uma corrida científica mundial. Nações passaram a investir bilhões de dólares para dominar sua produção e suas aplicações, conscientes de que quem liderasse essa revolução tecnológica ocuparia uma posição estratégica nas próximas décadas.
O que torna essa história tão inspiradora é que ela representa muito mais do que a criação de um centro de pesquisas. Ela demonstra que o Brasil pode participar das grandes transformações tecnológicas do mundo não apenas como consumidor de inovação, mas como protagonista na geração de conhecimento.
Em um século marcado pela inteligência artificial, pela computação avançada, pela transição energética e pelos novos materiais, o grafeno desponta como um dos pilares da próxima revolução industrial. E, graças ao trabalho desenvolvido pelo MackGraphe, o Brasil conquistou um lugar nessa corrida global. Cada experimento realizado em seus laboratórios aproxima o país de um futuro em que baterias durarão mais, dispositivos eletrônicos serão mais eficientes, sensores médicos detectarão doenças precocemente, estruturas serão mais leves e resistentes e novos produtos surgirão a partir de um material composto por apenas uma camada de átomos de carbono.
Essa é a essência do MackGraphe: transformar uma descoberta científica extraordinária em inovação capaz de impulsionar a indústria, fortalecer a economia e posicionar o Brasil entre os líderes da nanotecnologia mundial.
Foi nesse cenário que a Universidade Presbiteriana Mackenzie decidiu assumir um papel ousado: colocar o Brasil na fronteira mundial da nanotecnologia.
A visão começou a ganhar forma em 2012, quando foi criado o Instituto Mackenzie de Pesquisas em Grafeno e Nanotecnologias, conhecido internacionalmente como MackGraphe. O objetivo nunca foi apenas estudar o grafeno, mas transformar ciência de ponta em soluções concretas para a indústria, aproximando pesquisadores, empresas e inovação em um único ecossistema.
As atividades científicas tiveram início em 2013 e, poucos anos depois, o Mackenzie inaugurou um centro de pesquisas que rapidamente se tornou um marco para a ciência brasileira. Em 2016 foi aberto um edifício de aproximadamente 4.500 metros quadrados, equipado com laboratórios de última geração e construído com investimentos superiores a R$ 100 milhões, provenientes do Instituto Presbiteriano Mackenzie, da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo e de outras instituições de fomento. Na época, o MackGraphe foi reconhecido como o primeiro centro de pesquisas avançadas em grafeno e materiais bidimensionais da América Latina.
A inauguração teve um significado ainda maior porque contou com a presença de Andre Geim, um dos cientistas que isolou o grafeno pela primeira vez e recebeu o Prêmio Nobel de Física em 2010 por essa descoberta. Sua participação simbolizava que o Brasil passava a integrar o seleto grupo de países que investiam seriamente na próxima geração de materiais.
Desde sua criação, o MackGraphe foi concebido para reunir pesquisadores de diferentes áreas da engenharia, física, química e ciência dos materiais. Um dos nomes centrais dessa trajetória foi o professor José Augusto Pereira Brito, diretor executivo do instituto em seus primeiros anos, responsável por impulsionar a aproximação entre a pesquisa científica e o setor produtivo. Outro pesquisador de destaque é o professor Guilhermino Fechine, referência internacional em nanotecnologia e materiais bidimensionais, que contribuiu para consolidar a reputação científica do centro.
O diferencial do MackGraphe sempre foi enxergar o grafeno não apenas como um objeto de pesquisa acadêmica, mas como um motor de desenvolvimento econômico. Em vez de produzir conhecimento que permanecesse restrito aos laboratórios, o instituto passou a desenvolver tecnologias capazes de chegar às empresas e ao mercado.
Essa filosofia orientou pesquisas em áreas extremamente estratégicas.
Na área de energia, os pesquisadores trabalham no desenvolvimento de materiais para baterias mais eficientes, supercapacitores e dispositivos capazes de armazenar energia com maior desempenho.
Na fotônica, investigam componentes ópticos avançados que poderão revolucionar sistemas de comunicação, sensores e equipamentos de alta precisão.
Na área de materiais compósitos, desenvolvem polímeros, resinas e estruturas reforçadas com grafeno, capazes de produzir peças mais leves, resistentes e duráveis para aplicações na indústria automotiva, aeronáutica, construção civil e equipamentos industriais.
Ao mesmo tempo, equipes multidisciplinares pesquisam biossensores para diagnósticos médicos, revestimentos inteligentes, tintas condutivas, eletrônica flexível e novos processos industriais para produção de grafeno em larga escala.
Talvez um dos maiores desafios enfrentados pelo instituto esteja justamente naquilo que diferencia uma descoberta científica de uma revolução tecnológica: tornar o grafeno economicamente viável.
Produzir grafeno de alta qualidade em laboratório já era possível havia anos. O verdadeiro obstáculo era fabricá-lo em grandes quantidades, com qualidade consistente e custo suficientemente baixo para atender à indústria. Por isso, uma das prioridades do MackGraphe tornou-se o desenvolvimento de processos escaláveis de produção, capazes de transformar o abundante grafite brasileiro em um material estratégico de alto valor agregado.
Essa missão possui enorme relevância para o Brasil. O país está entre os maiores produtores mundiais de grafite, principal matéria-prima para obtenção do grafeno. Durante décadas, exportou esse recurso natural quase sempre com baixo valor agregado. A visão do MackGraphe é inverter essa lógica: em vez de vender apenas matéria-prima, desenvolver conhecimento, propriedade intelectual, tecnologias e produtos de alto valor tecnológico.
Esse posicionamento também levou o instituto a construir uma extensa rede de colaboração internacional. O MackGraphe mantém cooperação com centros de excelência, como o Centre for Advanced 2D Materials, da National University of Singapore, além de participar de projetos internacionais e estabelecer parcerias com universidades, empresas e centros de pesquisa de diversos países.
Ao longo dos anos, o instituto expandiu sua infraestrutura para cerca de 31 laboratórios, reunindo dezenas de pesquisadores permanentes, estudantes de graduação, mestrado, doutorado e pós-doutorado, além de diversos projetos simultâneos voltados à inovação tecnológica. Sua missão permanece clara: realizar pesquisa, desenvolvimento e inovação em grafeno e outros materiais bidimensionais para criar soluções que atendam às necessidades reais da indústria e da sociedade.
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